A infância que vivi

Quando criança, não tinha a visão do que poderia ser a agregação familiar. Para mim saber que tinha uma infinidade de tios (as), primos (as), já era o bastante para perceber que o “círculo” familiar era muito grande. 

Ter minha avó, bisavó e ainda mais trisavó era o maior orgulho.  Ao chegar aos 12 anos, minha curiosidade, criou asas!…   Passei a rascunhar pequenos pedaços de papeis anotando o nome de todos para uma futura história. 

ASSIM COMEÇOU O DEVANEIO DOS MEUS SONHOS:

A vida das pessoas interioranas passa muitas vezes sem deixar marcas.  O tempo perpetua a vida, mas, nunca os fatos corriqueiros que se volatizam com o passar dos dias.

Hoje quando vislumbro o passado, sinto quão felizes foram aqueles dias de meninice, que afloraram minha mente como retalhos de lembranças. De modo que, a maioria das crianças interioranas como fui, segundo os costumes da época, jamais participavam dos assuntos familiares.   A ordem era: obedecer sempre, não mentir, respeitar os mais velhos, não serem curiosos, etc, etc…

De qualquer forma, furando o cerco da educação arcaica, ouvíamos certos pedaços de frases…  – Ah!… Vai morrer!…   – Fugiu com outro?…  – Aquela moça não é virgem ???… O assassino fugiu!… – Com seis tiros???…  na amplidão da curiosidade infantil, era o estopim para o imaginoso. As visões ilusórias daquelas palavras favoreciam a suposta aparição de defuntos…  fantasmas…  assombrações… castigos ou coisas parecidas.  Entre bruxas e fadas tudo era possível.

Passaram-se os anos.   A essência permaneceu e com ela, o parolear de nossa gente não desapareceu ao todo.

Minha cidade é rica em “casos” e “causos” interessantes e burlescos.

SAUDADES…!…

O que é saudade?…

 — São recordações passadas, coisas distantes, algumas até extintas, alegres, tristes, que ficaram principalmente na infância São visões que ainda permanecem em nossa memória.  E como são lindas!  São acontecimentos que nunca mais se repetem, são como sonhos…

Sonhos lindos que sonhamos uma só vez. 

Por entre os pequenos retalhos de saudades, recordo minhas colegas de infância e adolescência, porém, dentre todas a que mais marcou aquele tempo mágico, que aguçou meu interesse pela leitura foi Maria da Gloria, filha de dona Orosília.  Em meados de 1948, esta garota foi para a minha classe, 3° ano primário.

Não sei de onde vieram, mas, na bagagem de minha coleguinha tinha tantos livros que dava gosto. Assim fazíamos aposta para ver quem conseguiria ler mais livros por semana.

Eram autores consagrados como: José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo, Machado de Assis, Aluísio de Azevedo, Flaubert e vários outros.

Tais obras provocaram em mim a voracidade pela leitura de poesias e romances. Passávamos os dias nos altos galhos da mangueira do quintal, devorando páginas e mais páginas de: A Moreninha, Iracema, Tulipa Negra, Robin Hood, o Guarani, os Três Mosqueteiros, o Primo Basílio, etc….

Hoje, de volta ao passado, vejo-me suspensa nos velhos galhos sonhando com os heróis de nossa literatura.

 Ao ler, começava a viver o drama de todos os personagens principais:  como as emoções da clausura de O máscara de ferro, A libertinagem de Athos,

Portos e Aramis, O Guarani, etc…etc…,  neste mundo imaginário:   __  Fui Fada, Rainha, Bruxa, Princesa, sofri nos guetos com os pobres de Paris, na época da queda da Bastilha e até fui decapitada com Ana Bolena. Enfim, época feliz que alicerçou meu futuro no gosto da escrita e literatura.

Flora Fonseca

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Um comentário em “A infância que vivi

  • 22 de junho de 2020 em 13:15
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    Dona Flora referência na arte de educar,figura importante da nossa história, muito me comoveu com suas memórias.

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